Hoje faz dez anos que morreu o escritor português José Cardoso Pires (2 de Outubro de 1925 — 26 de Outubro de 1998). Só li um livro dele — o romance Balada da Praia dos Cães — mas foi o suficiente para que eu me transformasse em um dos admiradores de sua obra. No começo da leitura, sua prosa original e singular (às vezes, creio que até um pouco datada) me causou certo incômodo e estranhamento, assim como a estrutura narrativa. No entanto, depois que me acostumei o incômodo e o estranhamento se tranformaram em qualidades. Seguem uns trechos do livro, como homenagem a esse autor que conheci por acaso em uma edição do Círculo do Livro, que encontrei em uma biblioteca pública, e só li porque ele era um dos poucos autores portugueses que o Harold Bloom havia inserido no seu Cânone Ocidental.
Porque não é preciso ser bruxo para saber que a partir destas palavras é que surgiram os berros nas paredes. Foi com elas que Mena se entonteceu quando se viu sozinha e desprezada na sala, foram estas, não foram outras; ficaram-lhe a ressoar enquanto o major lá dentro no quarto já se amainava, já afeiçoava os cornos nas palhas do colchão, enquanto as paredes, os móveis, os objectos, a olhavam a ela ali, a sangrar. Depois foi o que se sabe: Mena, a investir contra as paredes de esferográfica em punho, a destroçar-se pelas portas, pelos vidros, por tudo o que representasse limite, barreira e onde pudesse deixar bem à vista e para ser lido.
SOU UMA PUTA PORCA PUTA PORCA UMA SOU UMA sala, hall, corredor, acabando dobrada no lavatório da casa de banho, a ofegar, a ofegar, Deus, como ela estava.
Ia à procura dela no espelho, resume Elias com o seu lado mais azedo. Mas nem era verdade. Mena pelo contrário queria era fugir de si mesma. Desvairara ao correr dos muros, riscando-se neles, retraçando-se, e quando levantou a cabeça e se viu no espelho não se reconheceu. Recusava-se a aceitar aquela cara ensanguentada e para não ter piedade dela pôs-se a cobri-la à esferográfica com toda a fúria. Mas o vidro repelia-a, e a ponta do traço escorregava no polido e soltava rangidos dolorosos como dentes a rilhar.
Mena: As paredes, o problema está nisto e em mais coisa nenhuma. Umas tantas paredes riscadas e acho que mais uma porta, não tenho a certeza. E é com isso que os juízes ou lá quem eles são se vão pôr a chafurdar?
Elias: Não sei, não sou juiz.
(…)
É a altura em que os ratos nos quartos dos móveis amortalhados se eriçam todos, a farejar a escuridão e o silêncio. Procuram a menor vibração, as guias dos focinhos orientam-se, apuradíssimas. Por fim decidem-se a noite é deles. E todos à uma invadem o corredor, marinham pelas paredes (fantástica a maneira como sobem e a que alturas, parecem sombras animadas) deslizam ao correr dos rodapés e tomam de assalto a sala onde o lagarto Lizardo permanece misterioso no seu deserto envidraçado. A lua em balão sobre o Tejo derrama um brilho suspeito nos caixilhos das janelas, os vultos da mesa e do armário de torcidos alongam-se, misturam-se com a assembleia das cadeiras de palhinha e do canapé; o tecto de florões de estuque tornou-se branco-branco, duma brancura lunar, bem no centro pende um candeeiro de pesos, enforcado. No quarto ao lado pratica-se o sono solto em respirar de vaga larga: Elias. Na manhã seguinte quando acordar na presença das imagens veneradas, falecida irmã, falecidos pais, quando passar revista às ratoeiras que deixou de sentinela por toda a casa e as vir inúteis e humilhadas e encontrar os móveis de família passeados de cagadelas insultuosas, quando, enfim, se aproximar do reduzido condado do Lizardo e der de caras com o Tejo a saudá-lo, Elias só guardará dessa noite a nódoa que lhe assinala o pijama masturbado. Uma lágrima crestada que ele irá lavar à torneira.



