José Cardoso Pires

Hoje faz dez anos que morreu o escritor português José Cardoso Pires (2 de Outubro de 1925 — 26 de Outubro de 1998). Só li um livro dele — o romance Balada da Praia dos Cães — mas foi o suficiente para que eu me transformasse em um dos admiradores de sua obra. No começo da leitura, sua prosa original e singular (às vezes, creio que até um pouco datada) me causou certo incômodo e estranhamento, assim como a estrutura narrativa. No entanto, depois que me acostumei o incômodo e o estranhamento se tranformaram em qualidades. Seguem uns trechos do livro, como homenagem a esse autor que conheci por acaso em uma edição do Círculo do Livro, que encontrei em uma biblioteca pública, e só li porque ele era um dos poucos autores portugueses que o Harold Bloom havia inserido no seu Cânone Ocidental.

Porque não é preciso ser bruxo para saber que a partir destas palavras é que surgiram os berros nas paredes. Foi com elas que Mena se entonteceu quando se viu sozinha e desprezada na sala, foram estas, não foram outras; ficaram-lhe a ressoar enquanto o major lá dentro no quarto já se amainava, já afeiçoava os cornos nas palhas do colchão, enquanto as paredes, os móveis, os objectos, a olhavam a ela ali, a sangrar. Depois foi o que se sabe: Mena, a investir contra as paredes de esferográfica em punho, a destroçar-se pelas portas, pelos vidros, por tudo o que representasse limite, barreira e onde pudesse deixar bem à vista e para ser lido.

SOU UMA PUTA PORCA PUTA PORCA UMA SOU UMA sala, hall, corredor, acabando dobrada no lavatório da casa de banho, a ofegar, a ofegar, Deus, como ela estava.

Ia à procura dela no espelho, resume Elias com o seu lado mais azedo. Mas nem era verdade. Mena pelo contrário queria era fugir de si mesma. Desvairara ao correr dos muros, riscando-se neles, retraçando-se, e quando levantou a cabeça e se viu no espelho não se reconheceu. Recusava-se a aceitar aquela cara ensanguentada e para não ter piedade dela pôs-se a cobri-la à esferográfica com toda a fúria. Mas o vidro repelia-a, e a ponta do traço escorregava no polido e soltava rangidos dolorosos como dentes a rilhar.

Mena: As paredes, o problema está nisto e em mais coisa nenhuma. Umas tantas paredes riscadas e acho que mais uma porta, não tenho a certeza. E é com isso que os juízes ou lá quem eles são se vão pôr a chafurdar?

Elias: Não sei, não sou juiz.

(…)

É a altura em que os ratos nos quartos dos móveis amortalhados se eriçam todos, a farejar a escuridão e o silêncio. Procuram a menor vibração, as guias dos focinhos orientam-se, apuradíssimas. Por fim decidem-se a noite é deles. E todos à uma invadem o corredor, marinham pelas paredes (fantástica a maneira como sobem e a que alturas, parecem sombras animadas) deslizam ao correr dos rodapés e tomam de assalto a sala onde o lagarto Lizardo permanece misterioso no seu deserto envidraçado. A lua em balão sobre o Tejo derrama um brilho suspeito nos caixilhos das janelas, os vultos da mesa e do armário de torcidos alongam-se, misturam-se com a assembleia das cadeiras de palhinha e do canapé; o tecto de florões de estuque tornou-se branco-branco, duma brancura lunar, bem no centro pende um candeeiro de pesos, enforcado. No quarto ao lado pratica-se o sono solto em respirar de vaga larga: Elias. Na manhã seguinte quando acordar na presença das imagens veneradas, falecida irmã, falecidos pais, quando passar revista às ratoeiras que deixou de sentinela por toda a casa e as vir inúteis e humilhadas e encontrar os móveis de família passeados de cagadelas insultuosas, quando, enfim, se aproximar do reduzido condado do Lizardo e der de caras com o Tejo a saudá-lo, Elias só guardará dessa noite a nódoa que lhe assinala o pijama masturbado. Uma lágrima crestada que ele irá lavar à torneira.

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COL

Quase morri de rir com o conto do Daniel Pellizzari na edição comemorativa do COL. Quem quiser entender a alusão presente nesta última frase vai ter que ler o conto. Acreditem, é hilário.

A COLuna do Galera tem uma espécie de conto sobre um velho branco. O Galera tece varias reflexões sobre o velho, fala um pouco sobre o destino, tendendo para o determinismo, e acaba com uma alusão a um dos temas da obra de David Foster Wallace: a incapacidade de demonstrar o que realmente se passa dentro de nossa mente com precisão. Falta linguagem. E um trecho da autoria de DFW no final da COLuna deixa claro essa influência, que talvez seja parte da homenagem do Galera ao DFW, que, para quem não sabe, se suicidou no dia 12 de setembro desse ano.

O Cardoso continua com o humor meio nonsense que lembra algumas partes do almanaque virtual A Hortaliça, editado pela Vanessa Bárbara. Pensando bem, algumas partes da Hortaliça lembram o estilo do Cardoso, já que este veio antes. Eu ia tentar explicar esse estilo, mas estou com preguiça.

O Guilherme Pilla aproveitou para fazer uma brincadeira malvada mas engraçada com seus leitores. Na COLuna da Clarah, na qual só dei uma espiadinha, parece que ela narra a sua ida a um show. Não li bem os textos dos outros COLunistas, mas parecem bons.

A única notícia ruim é que essa é a última edição do COL. Bem, como explica o Pellizzari:

“coisas boas sempre acabam. por isso são boas. coisas
ruins duram pra sempre. são eternas, tipo o paraíso
cristão, onde ninguém fode nem faz artê.”

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O Tamanduá que cobriu o Sol

Como eu não gosto de falar de política, usei a metáfora do título, que apenas os habitantes da Capital Nacional do Frango entenderão, e vai ficar só nisso.

Pensando bem, vou falar mais um pouco: o candidato em que votei ganhou. No entanto, não compartilho do entusiasmo da maioria de seus eleitores. Votei nele mais porque minha família queria que ele ganhasse, e nada mais razoável do que eu, com meus dezessete anos e vivendo à custa de meu pai, colaborasse pelo menos com isso. Além disso, eu disse que o cara ia ganhar, e, se ele não ganhasse, como ficaria minha fama de profeta? Eu não posso estar errado.

Foi meu primeiro voto. As mesárias até me zoaram. Primeiro eu cheguei e não sabia quem eram as mesárias (por incrível que pareça, as mesárias são as que ocupam as mesas!). Mas não era bem assim, tinha umas mulheres na porta que, se não me engano, também tinham mesas, e daí… Eh… Bem, foi assim: fiquei parado na entrada da sala (e até imagino minha expressão facial) até que uma das mesárias estendeu a mão, num sinal que significava “me dê logo seu título”. Fui até lá. Entreguei o título, e fiquei com o RG na mão (afinal precisa ou não do RG? a mulher nem olhou o meu). Aí ela pediu se era minha primeira votação. Claro que ela só estava tentando puxar conversa, afinal com o título na mão era só olhar minha data de nascimento. Tá, fui lá, votei e, quando voltei, uma das mesárias se aproveitou de minha inocência:

— Viu, nem te mordeu.

Eu mereço. Dei um sorriso tímido e olhei para baixo. Peguei o título, agradeci, tentando me impor um pouco, mas a essa altura já estava tudo perdido. Dei um tchau rápido e fui embora.

Pronto, sobre a eleição era isso.

***

A Copa de Literatura Brasileira (CLB) está bem divertida. Acompanhem lá.

***

Ontem assisti O Amor nos Tempos do Cólera (sempre pensei que fosse “de Cólera”). Bem, o que posso dizer. Um filme bom, só isso. Quem espera uma adaptação tão boa como Onde os Fracos Não Têm Vez ou Desejo e Reparação nem assista. Acho que deveria ter lido o livro primeiro, mas agora já foi.

Algumas coisas a serem ressaltadas: o filme tem um estilo bem, como eu posso dizer, tropical e caliente, que me lembrou algumas coisas do cinema brasileiro (no qual, aliás, não sou nenhum expert — não assisti nem Glauber Rocha), o que não é surpresa já que é baseado na obra de um colombiano (é aqui perto, porra) e tem a Fernanda Montenegro em um dos papéis principais. Falando em papéis, gostei muito da atuação do Javier Bardem, em minha opinião um dos melhores atores da atualidade.

Hoje finalmente assisti O Efeito Borboleta. Estranho eu ter demorado tanto já que sou fissurado pela teoria do caos. Gostei do filme, mas estava esperando mais. Criar expectativas sempre é um saco. Um amigo meu disse que o filme era difícil, que teve que assistir duas vezes para entender e sei lá mais o quê. Bem, eu acho que, se você não sofre de lapsos de memória como o personagem principal, assistir uma vez é mais do que o suficiente. Queria ver esse meu amigo assistindo Syriana ou O Bom Pastor, filmes que exigem muito mais do espectador.

Em outra ocasião falo mais sobre os filmes (mentira, não falo). Faz um tempo que chegou o CardosOnline – Edição Especial Comemorativa do Centenário, e eu estou louco para lê-lo (para quem não sabe, o CardosOnline foi um e-zine brasileiro, famoso por revelar os escritores Daniel Galera, Daniel Pellizzari e Clarah Averbuck. Conheci o e-zine recentemente e devo dizer que alguns textos me agradaram muito, tanto que baixei todas as edições. O Galera, além dos contos e das egotrips, escreveu ótimas resenhas sobre cinema, música, literatura e o diabo a quatro; conheci Will Oldham, Modest Mouse e Portishead graças à essas resenhas).

Por hoje é só.

Trilha sonora de hoje:

Fly Pan Am – Fly Pan Am

Stars – Set Yourself On Fire

Iron & Wine | Calexico – In The Reins

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Mais citações

Moço: toda saudade é uma espécie de velhice.

Guimarães Rosa, GRANDE SERTÃO: VEREDAS

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O homem que cavalga longamente por terrenos selváticos sente o desejo de uma cidade. Finalmente, chega a Isidora, cidade onde os palácios têm escadas em caracol incrustadas de caracóis marinhos, onde se fabricam à perfeição binóculos e violinos, onde quando um estrangeiro está incerto entre duas mulheres sempre encontra uma terceira, onde as brigas de galo se degeneram em lutas sanguinosas entre os apostadores. Ele pensava em todas essas coisas quando desejava uma cidade. Isidora, portanto, é a cidade de seus sonhos: com uma diferença. A cidade sonhada o possui jovem; em Isidora, chega em idade avançada. Na praça, há o murinho dos velhos que vêem a juventude passar; ele está sentado ao lado deles. Os desejos agora são recordações.

Italo Calvino, AS CIDADES INVISÍVEIS

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Hope I die before I get old

Pete Townshend, MY GENERATION

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Permanecia uma hora inteira mergulhado dentro da banheira, escutando música, até a água ficar fria. E especialmente ali, dentro da água, eu me sentia cansado. Velho, em certo sentido. No sentido de que era tarde demais pra morrer jovem.

Daniel Galera, ATÉ O DIA EM QUE O CÃO MORREU

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Que fique registrado

Hoje eu desisti de ler Grande Sertão: Veredas, não porque estivesse extremamente difícil, mas pela extensão do livro. E também porque não leio com velocidade, muito pelo contrário.

Além disso, preciso estudar para o vestibular, depois do meu total fracasso no ENEM.

Esse é o primeiro livro que eu começo a ler e abandono desde que eu li o Fausto, de Goethe, no começo do ano passado. E olha que alguns livros me tentaram. Alguns livros do Guimarães Rosa inclusive — Sagarana e Primeiras Estórias, para ser mais exato. Teve também Georges Perec com o livros As Coisas — ô livro chato do caralho; bom, é claro, mas ainda assim chato. Ou talvez fosse a época em que li o livro. Mas também, é o romance de estréia do cara, e pareceu-me mais um tratado sociológico do que um romance propriamente dito. Acho que eu exagerei, mas é por aí. Avalovara também foi foda, eu não sabia se amava ou odiava o livro. Os Trabalhadores do Mar também, porque demorei um bom tempo para compor na mente a construção usada pelo Gilliat para salvar o motor da Durande. Passeio ao Farol, de Virginia Woolf, e A Jangada de Pedra, de José Saramago também foram razoavelmente difíceis, embora prazerosos e recompensadores. Vineland, de Thomas Pynchon, me incomodou um pouco pela extensão, mas como era divertido foi praticamente redimido na minha minha memória. Balada da Praia dos Cães, do José Cardoso Pires, incomodou um pouco pelo modo de narração e pelas expressões, mas depois que a leitura engrenou foi maravilhoso.

Pensando bem, todos esses livros, com exceção do As Coisas, ficaram com um saldo bastante positivo. Mesmo o As Coisas tinha algumas coisas razoáveis (sem trocadilho). Passeio ao Farol, A Jangada de Pedra, Avalovara e Balada da Praia dos Cães foram alguns dos melhores livros que já li na vida (tudo bem que não li muitos, mas vá lá).

Finalizando, só para esclarecer: não, esse não é o princípio do fim, no qual eu me resigno perante minha mediocridade e desisto das coisas grandes, como narrei (ou seria profetizei?) ontem. Pelo menos ainda não. O GS:V continua na minha lista, mas não sei quando vou ter tempo e mesmo disponibilidade, já que dependo de bibliotecas. O que se pode fazer? Afinal, como diz o Riobaldo, viver é muito perigoso.

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Ainda sobre o post de ontem

Há uma cena no filme Escola de Rock1 (School of Rock) que tem um diálogo que me chamou a atenção entre Dewey Finn (Jack Black) — um rockeiro frustrado — e seu amigo Ned Schneebly (Mike White) — um ex-rockeiro, que desistiu do rock para se tornar professor substituto. É mais ou menos assim:

Dewey Finn: Você não entende, foi fácil para você desistir da música. Não é fácil para mim.
Ned Schneebly: Não foi fácil para mim. Eu sinto falta.
DF: Então porque desistiu?
NS: Porque eu não podia ficar mais me enganando. Você pode culpar a falta de sorte, mas no final das contas… talvez a gente não fosse bom mesmo. Às vezes temos que saber a hora de desistir.
DF: Pode ter razão. Vai ver eu sou péssimo.
NS: Não foi isso que eu disse.
DF: A música é a minha vida, cara. Quer que eu faça o que?
NS: Sei lá, mas… acho que está na hora de você se mudar daqui. Desculpe.

Agora, um trecho do conto “Manual para atropelar cachorros”, que está no livro Dentes Guardados, do Daniel Galera:

Mas tu tá trabalhando com Publicidade, né, por que? Porque a gente tem que trabalhar em alguma coisa, não tem jeito, precisa-se de dinheiro e todo trabalho é a mesma coisa, já aprendi a separar o trabalho remunerado da vida de fato, daquilo que se faz em casa uma hora antes de dormir, ou do que fazemos em nosso curto tempo livre, isso é o que importa, e no meu tempo livre eu escrevo, vejo uns filmes, leio, bebo e durmo.

Um trecho do prólogo do livro Vozes Anoitecidas, de Mia Couto:

O que mais dói na miséria a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros.
Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes.

Um trecho da letra da música “Ouro de Tolo”, do Raul Seixas:

Eu tenho uma porção
De coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado…

Um trecho da “Somos Quem Podemos Ser”, dos Engenheiros do Hawaii:

Somos quem podemos ser…
Sonhos que podemos ter…

E, para fechar essa espécie de apêndice, um trecho do livro Grande Sertão: Veredas, do grande2 Guimarães Rosa:

Visível que, aqueles outros tempos, eu pintava — cré que o caroá levanta a flor. Eh, bom meu pasto… Mocidade. Mas mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir. Também, eu desse de pensar em vago em tanto, perdia minha mão de homem para o manejo quente, no meio de todos.

1 O filme é bobo, tem final feliz e tudo, mas eu não consigo passar incólume por um diálogo desses. Assisti ao filme há certo tempo e ainda me lembro disso toda vez que penso no assunto do post de ontem.

2 O trocadilho não foi proposital. Percebi agora, mas deixa quieto.

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Existências medíocres ou Aceitando que não se é especial

Between grief and nothing I will take grief.

William Faulkner, THE WILD PALMS

Uma das coisas que mais me impressiona em algumas pessoas é essa capacidade que elas parecem ter de se contentar com o pouco. Não, eu não estou falando de dinheiro. É outra coisa. Estou falando de desistir dos sonhos, da arte, do conhecimento, de tudo que dá à existência um sentido no mínimo razoável.

Talvez o problema seja comigo, mas eu não consigo entender como essas pessoas conseguem aceitar o que são ou o que se tornaram. Ou ainda, como elas podem se contentar com sonhos tão ínfimos: uma promoçãozinha, uma casa própria, um mero diploma. Tudo isso me nauseia.

Eu simplesmente não posso conviver com a idéia de que sou só isso que sou agora, ou melhor, de que vou ser isso até o fim da minha vida. Mas parece que, para alguns, isso não é problema. E o que é pior, para alguns, isso nunca foi problema.

Mas o mais assustador é que outros já foram como eu, ou seja, já tiveram seus próprios sonhos, já lutaram para realizá-los e, no fim, algum acidente de percurso os desviou dos seus objetivos. Isso quer dizer que eu posso acabar como eles: um pai de família, que tem uma filha promíscua e um filho vagabundo, que tem que trabalhar oito horas por dia em um emprego medíocre, que volta para casa abatido porque deu um drop table sem fazer backup e levou um sermão do chefe, que briga com a mulher todo dia, e que tem seu único contentamento em assistir a um jogo de futebol e tomar uma cervejinha com os amigos no domingo, enquanto faz piadas racistas e homofóbicas. Ah, claro, e que se torna um membro assíduo na igreja porque crê que no céu ele será recompensado por uma existência resignada e frustrada na terra. Patético, e, no entanto, aparentemente inevitável.

É como se elas acordassem certo dia e dissessem “chega, eu não tenho talento, sou só um mero mortal, fadado a ser apenas mais um na multidão” e então parassem de tentar algo maior e raro para ficarem com o prosaico e trivial.

Como eu já disse, talvez algum dia isso aconteça comigo também. Talvez algum dia, depois de mais um dos meus muitos fracassos, eu pare e diga para mim mesmo “chega, você precisa deixar de lado sua megalomania e seu orgulho, precisa aceitar que não é mais do que as outras pessoas, que não precisa ser mais do que as outras pessoas”. Então talvez o ininteligível torne-se inteligível e eu possa entender e até aceitar, com um sorriso melancólico, que, no fundo, sou só isso.

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Texto idiota que eu escrevi

A professora de Língua Portuguesa nos deu um trabalho que consistia em fazer uma redação livre (risada maquiavélica) com base em um título e em uma primeira frase fornecidos por ela. Vejam só o que eu aprontei:

Pra que serve uma caneta

Eu sei, meu filho, que você não gosta de estudar. Mas essa história de que tudo na vida tem que dar prazer é coisa do hedonismo, uma doutrina que os liberais ficam espalhando por aí, deturpando a moral e os bons costumes. Afinal, quem disse que você precisa gostar de estudar para estudar? Veja o estudo como uma espécie de prólogo do trabalho. Se você não gosta de estudar, quem dirá trabalhar?

Mas voltemos ao estudo, meu filho. Eu dizia-lhe, antes de me enveredar por elucubrações inúteis, que o fato de você não gostar de estudar não é motivo para atirar canetas nos seus colegas, durante a aula de matemática. Veja bem, ter acertado a professora por engano (foi por engano, não?) foi dos males o menor. Já pensou se você acerta o olho de um colega seu? Imagina o processo que isso ia render nas minhas costas. Você sabe que o negócio anda mal desde que sua mãe, além de me botar chifres, não usou de discrição nenhuma para isso. Se ela tivesse sido discreta, eu não precisaria me separar dela e, conseqüentemente, de metade do meu capital, que já não era nenhuma fortuna. Da próxima vez que eu quiser me livrar do escárnio público, vou me mudar. Claro que você vai ter que fazer novos amigos, e para isso vamos ter que mudar alguns dos seus hábitos. Jogar canetas nos outros, por exempo, não é uma atitude lá muito amigável.

Por isso estou lhe escrevendo esta carta. Para lhe explicar para que serve uma caneta, e também porque se eu falasse isso cara a cara com você, olhando para essa sua expressão indolente, e levando-se em conta como eu ando irritado, provavelmente você acabaria estrangulado, afogado na privada ou jogado pela janela, e eu me tornaria a mais nova atração da TV brasileira, com direito a um bando de pessoas que não tem o que fazer cercando minha casa e me maldizendo toda vez que meu rosto aparecesse no noticiário. Eu acabaria vítima do julgamento mais concorrido do ano, e, depois de condenado, cairia no anonimato e nas mãos de uma horda de presos pederastas, sedentos por um pedófilo ou por um estrangulador de crianças. E as pessoas que acompanharam o caso — pseudo-moralistas, mequetrefes ociosos e onagros reacionários, enfim, todos os detentores dos bons costumes da sociedade — logo esqueceriam de mim em prol da mais nova notícia da TV — duas garotas mimadas que fugiram de casa para fornicar, digo, conhecer o país, ou ainda uma cantora que foi internada numa clínica de recuperação para drogados pela septuagésima vez, quebrando assim o recorde anterior, que pertencia a um macaco amestrado fugido de um circo sueco que foi acusado inúmeras vezes de maus tratos para com os animais.

Então, meu filho, como eu dizia antes de me perder novamente em devaneios, uma caneta serve para escrever várias coisas, inclusive uma carta para um filho desobediente, evitando assim conversar diretamente com ele, o que poderia resultar nas desventuras narradas acima. E se você, meu filho, porventura se perguntar por que eu escrevi essa carta a lápis e não a caneta, posso apenas responder que o lápis me lembra uma utopia que, naturalmente, não condiz com a realidade onde tudo é irreversível. Nessa utopia, eu poderia fazer as coisas e apagá-las a meu bel-prazer, quando elas não mais me agradassem. Dentre as coisas “apagáveis” estariam uma esposa adúltera, uma cláusula no documento de divórcio, um vizinho escarnecedor e até mesmo um filho que tem como passatempo atirar canetas nos outros.

Bem, é um lixo de texto, mas não tenho dúvidas de que me diverti ao escrevê-lo. Acho que vou ir mal, minha professora não deve ser nenhuma aficionada por nonsense. Mas vá lá. Não estou nem aí para a nota. Esses dias, em um fórum, um conhecido meu disse que escreveu “um texto psicodélico sobre um rato que morava em marte e tinha medo de uma mulher que voava em uma lhama com um arco de ouro nas costas”, e o professor dele gostou. Isso sim é estranho.

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Happy Bloomsday to you, James Joyce.

Como alguns sabem, hoje é o Bloomsday. Para os que não sabem, vou explicar: o Bloomsday é um feriado comemorado na Irlanda, no dia 16 de junho, em homenagem ao livro Ulisses, a obra-prima de James Joyce (há controvérsias…) e uma da mais importantes criações literárias do século XX.

O Bloomsday tem essa denominação por causa do nome do personagem principal do livro, Leopold Bloom. E é comemorado em 16 de junho porque a história do livro se passa nesse dia. Já James Joyce, por sua vez, escolheu que a ação do livro se passaria nessa data porque no dia 16 de junho do ano de 1904, ele saiu pela primeira vez com Nora Barnacle, a qual viria a se tornar sua esposa. Alguns boatos dizem que, nesse dia, ela teria desabotoado a braguilha da calça dele, e… vocês sabem.

Agora que já expliquei o Bloomsday, vou explicar rapidamente por que não vou escrever nada sobre o Ulisses: pelo simples motivo, causa, razão ou circunstância de que eu não li o livro. O único livro do Joyce que eu li foi Dublinenses, do qual gostei.

Ulisses não está na minha lista de leitura a curto prazo, mas está com toda certeza na de longo prazo. Afinal, eu só tenho dezessete anos (essa vai ser uma das poucas vezes em que quem lê esse blog vai me ver dizendo isso, já que sou um jovem com freqüentes crises de meia idade – “eu já tenho dezessete anos e o que eu realizei até agora?”).

Bem, como aqui vai ficar na falta de um texto especial, vocês podem conferir uma comemoração decente do Bloomsday no site/blog do Leandro Oliveira. Ele faz isso todos os anos.

Quem sabe no ano que vem eu já tenha algo a dizer sobre o Ulisses.

Só para não passar em branco, aqui vai um excerto catado a esmo do livro em e-book, com tradução do Antônio Houaiss:

Equanimidade?
Como tão natural quanto qualquer e cada acto natural de uma natureza expressa e entendida executado em natureza naturada por criaturas naturais em concordância com as naturezas naturadas dele, dela e deles, de similaridade dissimilar. Com não tão calamitoso quanto uma aniquilação cataclísmica do planeta em consequência de colisão com um sol sombrio. Como menos repreensível que roubo, assalto em estrada, crueldade com crianças e animais, obtenção de dinheiro sob falsos pretextos, forjicação, malversação, prevaricação com dinheiro público, abuso da confiança pública, simulação de doença, lesão deliberada, corrupção de menores, difamação criminosa, chantagem, contempto da justiça, incendiarismo, traição, felonia, amotinamento em alto mar, violação de domicílio, arrombamento, evasão de prisão, prática de vício contra a natura, deserção das forças armadas em ação, perjúrio, caça e pesca ilícitas, usura, inteligência com os inimigos do rei, falsificação de pessoa, assalto criminoso, assassínio, homicídio voluntário e premeditado. Como não mais anormal que todos os processos afterados de adaptação a condições de existência alteradas, resultantes em equilíbrio recíproco entre os organismos corporais e suas circunstâncias esperáveis, alimentos, beberagens, hábitos adquiridos, inclinações indulgidas, doenças significativas, Como mais que inevitável, irreparável.

P.S.: Não resisti ao clichê: será que no futuro rola um equivalente no Brasil? Dia do Riobaldo seria o mais provável.

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Coisas que eu ia escrever mas fiquei com preguiça

Trata-se, na verdade, de uma lista difusa, na qual eu, Sandmind, se adotei a forma livre de um Alexandre Soares Silva, ou de um Alex Castro, não sei se lhe meti algumas ranhuras de ironia. Aí vai:

1 – Um ensaio longo sobre a suposta alienação na vida e na literatura, evocando exemplos clássicos como, por exemplo, Machado de Assis. Também aproveitaria para zoar aquele famoso texto do Bertold Brecht – O Analfabeto Político – e defender o conceito da torre de marfim. Depois discorreria sobre a relação do homem comum com a política e com o próprio umbigo. Ah, e isso deveria ser escrito em um estilo fluente e divertido, com influência de Campos de Carvalho ou mesmo de Antonio Prata, simulando o humor de ambos.

2 – Uma lista de explicações para o fato de eu escrever tão mal – minhas redações são um lixo, apesar de ler bem mais do que esse bando de autômatos de cursinho. Aliás, uma destas explicações proveniente de um post recente da Olivia Maia em seu blog.

3 – Um texto desenvolvendo e defendendo a noção de que a vida tem dois objetivos supremos: divertimento e epifanias. O resto é vaidade. (ou não é, Pregador?)

4 – Uma crônica sobre a minha conturbada relação com as pessoas, narrada com um lirismo contundente (nada de realismo pungente, isso soa muito orelha-de-livro-do-Rubem-Fonseca).

5 – Uma lista de talentos que eu nunca tive nem nunca desejei ter (embora, para consegui-los, algumas pessoas gastem horrores ligando para o número 666, na esperança de conseguir uma audiência e um pacto com o Diabo, o qual está sempre muito ocupado, servindo de alibi para Deus lavar suas mãos sempre tão sujas – as histórias de Fausto e de Jó datam de um tempo em que os homens eram trogloditas e ainda não precisavam de um bode expiatório para seus pecados) como, por exemplo, poder de retórica, liderança e simpatia.

6 – Uma análise dos meus posts anteriores, explicando-os e ironizando-os. (Bem, esse tem mais razões para não dar as caras do que a simples preguiça do autor.)

7 – Um conto sobre um velho que… (nada de previews ou pré-spoilers, já pensou se eu volto atrás? Ou se algum estafermo plagiador se aproveita de minha idéia, ganha um prêmio literário, e eu sou condenado a passar o resto da vida se lamentando por não ter escrito o conto? Afinal, a única coisa pior que a desistência é a certeza do sucesso que ela tornou impossível.)

8 – Um texto clichê sobre o pragmatismo, o fatalismo (ou determinismo, como queira), o acaso, a sorte, o azar e, finalmente, o niilismo – a única opção para os céticos desprovidos de imaginação.

9 – Um texto criticando essa moda recente da “nova direita” de criticar o Saramago (coitado do bom velhinho, até chorou recentemente por ocasião da exibição do filme do Fernando Meirelles baseado em um de seus livros, enquanto este último solta a resposta mais clichê possível – algo como “Você não sabe como isso me deixa feliz”).

10 – Um texto falando sobre a “nova direita”, a “velha esquerda”, o populismo, o antiintelectualismo, a inutilidade da cultura (literatura, música…) e a já citada torre de marfim.

11 – Um texto sobre a minha relação com a música: minhas bandas favoritas, minhas tentativas de aprender a tocar um instrumento, compor músicas e pagar de conhecedor musical supremo. Por fim, minha resignação perante minha falta de talento e eventuais recaídas, nas quais pego o violão e fico solando durante horas seguidas, fantasiando que eu sou o Django Reinhardt ou qualquer outro jazzista capaz de improvisações ad infinitum.

12 – Um resenha original sobre Avalorava, o magnum opus de Osman Lins, e uma sobre A Chuva Imóvel, do grande Campos de Carvalho, uma das poucas pessoas que ousou fazer humor decente nesse país onde atualmente A Praça É Nossa e Zorra Total reinam soberanos. (O fato de os dois autores serem desconhecidos talvez seja o embrião para uma futura lista, onde enumero meus quatro grandes autores brasileiros esquecidos, assim como o Alex Castro tem os dele – Cornélio Penna, Lúcio Cardoso, Adonias Filho e José J. Veiga. Só falta eu encontrar mais dois. Opções não faltam – Agrippino de Paula, Antônio Fraga, Uilcon Pereira ou os atuais Elvira Vigna e Esdras do Nascimento. Há ainda a possibilidade de inventar um autor, assim como o Sérgio Rodrigues inventou o prosador vesgo Lucho Ventania – ou talvez ele exista mesmo, tenho minhas dúvidas.)

13 – Um post sobre listas e como elas funcionam como um empurranzinho para quem, como eu, não tem do que escrever ou não sabe por onde começar. Com direito a citações às famosas listas de treze coisas do Polzonoff (olha, esse é o item número treze…).

14 – (Só para não plagiar o Polzonoff) Um ensaio enumerando dez coisas coisas ilógicas nas doutrinas bíblicas de uma certa igreja (com direito à um apêndice onde eu explico porque não mataria meu professor de lógica e, se porventura o matasse, não iria morar sob uma ponte do Sena apesar de nunca ter estado em Paris). Olha que eu já tinha conseguido umas três, quando a preguiça resolveu baixar suas asas anestesiantes sobre mim, totalmente inerme e inerte em minha clássica postura meditabunda.

15 – Um ensaio humorístico, onde eu esculacho (que palavras mais…) os ateus, os cristãos e os agnósticos, e me apresento como um dervixe rodopiante dotado de uma aptidão inata para o ballet, mais ou menos como a de Billy Elliot, mas sem a efeminação que o filme pintou como inerente a este talento. Aliás, é por causa desse maldito filme e da homofobia que nós temos que esconder nosso talento, vivendo como nômades e graças à caridade de alguns mecenas, sem falar no risco que corremos recebendo dinheiro de estranhos, os quais bem podem ser pessoas estranhas com taras por homens de saia (ora veja, podemos usar saias sem sermos considerados gays, mas não dançar) e que vivem sonhando em morar na Escócia.

16 – Um texto onde eu falo sobre o invejável ouvido absoluto, explico do que se trata, falo sobre a única pessoa que eu conheço que o tem – uma garota um pouco mais nova que eu – e, finalmente, desemboco (existe essa conjugação?) novamente no determinismo, na predestinação e em outros demônios afins.

17 – Um texto no qual eu mostro meu despeito pela resenha do Eduardo Carvalho para a CLB de 2007, onde ele diz que Antônio Torres é “um escritor mixuruca com ambição intergalática” e mostra total desconhecimento do resto de sua obra.

Agora vou ler La Secta del Fénix, de Jorge Luis Borges – descolei o download de um e-book de Ficciones em espanhol, não que eu saiba falar espanhol, mas ler é outra coisa, eu entendo quase tudo. Depois vou ficar entediado e talvez brinque com minha Princesa Sofia – Capitão Kirk, segundo um teste internético – enquanto escuto Longview do Green Day.

En la alegoría del Fénix me impuse el problema de sugerir um hecho común – el Secreto – de uma manera vacilante e gradual que resultara, al fin, inequívoca; no sé hasta dónde la fortuna me ha acompañado. Jorge Luis Borges.

Eu tentei fazer o mesmo com o último parágrafo. Adivinhem.

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