Texto idiota que eu escrevi

A professora de Língua Portuguesa nos deu um trabalho que consistia em fazer uma redação livre (risada maquiavélica) com base em um título e em uma primeira frase fornecidos por ela. Vejam só o que eu aprontei:

Pra que serve uma caneta

Eu sei, meu filho, que você não gosta de estudar. Mas essa história de que tudo na vida tem que dar prazer é coisa do hedonismo, uma doutrina que os liberais ficam espalhando por aí, deturpando a moral e os bons costumes. Afinal, quem disse que você precisa gostar de estudar para estudar? Veja o estudo como uma espécie de prólogo do trabalho. Se você não gosta de estudar, quem dirá trabalhar?

Mas voltemos ao estudo, meu filho. Eu dizia-lhe, antes de me enveredar por elucubrações inúteis, que o fato de você não gostar de estudar não é motivo para atirar canetas nos seus colegas, durante a aula de matemática. Veja bem, ter acertado a professora por engano (foi por engano, não?) foi dos males o menor. Já pensou se você acerta o olho de um colega seu? Imagina o processo que isso ia render nas minhas costas. Você sabe que o negócio anda mal desde que sua mãe, além de me botar chifres, não usou de discrição nenhuma para isso. Se ela tivesse sido discreta, eu não precisaria me separar dela e, conseqüentemente, de metade do meu capital, que já não era nenhuma fortuna. Da próxima vez que eu quiser me livrar do escárnio público, vou me mudar. Claro que você vai ter que fazer novos amigos, e para isso vamos ter que mudar alguns dos seus hábitos. Jogar canetas nos outros, por exempo, não é uma atitude lá muito amigável.

Por isso estou lhe escrevendo esta carta. Para lhe explicar para que serve uma caneta, e também porque se eu falasse isso cara a cara com você, olhando para essa sua expressão indolente, e levando-se em conta como eu ando irritado, provavelmente você acabaria estrangulado, afogado na privada ou jogado pela janela, e eu me tornaria a mais nova atração da TV brasileira, com direito a um bando de pessoas que não tem o que fazer cercando minha casa e me maldizendo toda vez que meu rosto aparecesse no noticiário. Eu acabaria vítima do julgamento mais concorrido do ano, e, depois de condenado, cairia no anonimato e nas mãos de uma horda de presos pederastas, sedentos por um pedófilo ou por um estrangulador de crianças. E as pessoas que acompanharam o caso — pseudo-moralistas, mequetrefes ociosos e onagros reacionários, enfim, todos os detentores dos bons costumes da sociedade — logo esqueceriam de mim em prol da mais nova notícia da TV — duas garotas mimadas que fugiram de casa para fornicar, digo, conhecer o país, ou ainda uma cantora que foi internada numa clínica de recuperação para drogados pela septuagésima vez, quebrando assim o recorde anterior, que pertencia a um macaco amestrado fugido de um circo sueco que foi acusado inúmeras vezes de maus tratos para com os animais.

Então, meu filho, como eu dizia antes de me perder novamente em devaneios, uma caneta serve para escrever várias coisas, inclusive uma carta para um filho desobediente, evitando assim conversar diretamente com ele, o que poderia resultar nas desventuras narradas acima. E se você, meu filho, porventura se perguntar por que eu escrevi essa carta a lápis e não a caneta, posso apenas responder que o lápis me lembra uma utopia que, naturalmente, não condiz com a realidade onde tudo é irreversível. Nessa utopia, eu poderia fazer as coisas e apagá-las a meu bel-prazer, quando elas não mais me agradassem. Dentre as coisas “apagáveis” estariam uma esposa adúltera, uma cláusula no documento de divórcio, um vizinho escarnecedor e até mesmo um filho que tem como passatempo atirar canetas nos outros.

Bem, é um lixo de texto, mas não tenho dúvidas de que me diverti ao escrevê-lo. Acho que vou ir mal, minha professora não deve ser nenhuma aficionada por nonsense. Mas vá lá. Não estou nem aí para a nota. Esses dias, em um fórum, um conhecido meu disse que escreveu “um texto psicodélico sobre um rato que morava em marte e tinha medo de uma mulher que voava em uma lhama com um arco de ouro nas costas”, e o professor dele gostou. Isso sim é estranho.

2 Respostas até o momento »

  1. 1

    Lucas disse,

    Depois que tirou 9, continua “nem aí” para a nota?

    :D

  2. 2

    Lucas disse,

    Nunca mais um outro post? :(


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