Between grief and nothing I will take grief.
William Faulkner, THE WILD PALMS
Uma das coisas que mais me impressiona em algumas pessoas é essa capacidade que elas parecem ter de se contentar com o pouco. Não, eu não estou falando de dinheiro. É outra coisa. Estou falando de desistir dos sonhos, da arte, do conhecimento, de tudo que dá à existência um sentido no mínimo razoável.
Talvez o problema seja comigo, mas eu não consigo entender como essas pessoas conseguem aceitar o que são ou o que se tornaram. Ou ainda, como elas podem se contentar com sonhos tão ínfimos: uma promoçãozinha, uma casa própria, um mero diploma. Tudo isso me nauseia.
Eu simplesmente não posso conviver com a idéia de que sou só isso que sou agora, ou melhor, de que vou ser isso até o fim da minha vida. Mas parece que, para alguns, isso não é problema. E o que é pior, para alguns, isso nunca foi problema.
Mas o mais assustador é que outros já foram como eu, ou seja, já tiveram seus próprios sonhos, já lutaram para realizá-los e, no fim, algum acidente de percurso os desviou dos seus objetivos. Isso quer dizer que eu posso acabar como eles: um pai de família, que tem uma filha promíscua e um filho vagabundo, que tem que trabalhar oito horas por dia em um emprego medíocre, que volta para casa abatido porque deu um drop table sem fazer backup e levou um sermão do chefe, que briga com a mulher todo dia, e que tem seu único contentamento em assistir a um jogo de futebol e tomar uma cervejinha com os amigos no domingo, enquanto faz piadas racistas e homofóbicas. Ah, claro, e que se torna um membro assíduo na igreja porque crê que no céu ele será recompensado por uma existência resignada e frustrada na terra. Patético, e, no entanto, aparentemente inevitável.
É como se elas acordassem certo dia e dissessem “chega, eu não tenho talento, sou só um mero mortal, fadado a ser apenas mais um na multidão” e então parassem de tentar algo maior e raro para ficarem com o prosaico e trivial.
Como eu já disse, talvez algum dia isso aconteça comigo também. Talvez algum dia, depois de mais um dos meus muitos fracassos, eu pare e diga para mim mesmo “chega, você precisa deixar de lado sua megalomania e seu orgulho, precisa aceitar que não é mais do que as outras pessoas, que não precisa ser mais do que as outras pessoas”. Então talvez o ininteligível torne-se inteligível e eu possa entender e até aceitar, com um sorriso melancólico, que, no fundo, sou só isso.
Lucas disse,
Setembro 7, 2008 @ 9:24 pm
Por algum motivo, era exatamente o post que eu precisava ler.