Há uma cena no filme Escola de Rock1 (School of Rock) que tem um diálogo que me chamou a atenção entre Dewey Finn (Jack Black) — um rockeiro frustrado — e seu amigo Ned Schneebly (Mike White) — um ex-rockeiro, que desistiu do rock para se tornar professor substituto. É mais ou menos assim:
Dewey Finn: Você não entende, foi fácil para você desistir da música. Não é fácil para mim.
Ned Schneebly: Não foi fácil para mim. Eu sinto falta.
DF: Então porque desistiu?
NS: Porque eu não podia ficar mais me enganando. Você pode culpar a falta de sorte, mas no final das contas… talvez a gente não fosse bom mesmo. Às vezes temos que saber a hora de desistir.
DF: Pode ter razão. Vai ver eu sou péssimo.
NS: Não foi isso que eu disse.
DF: A música é a minha vida, cara. Quer que eu faça o que?
NS: Sei lá, mas… acho que está na hora de você se mudar daqui. Desculpe.
Agora, um trecho do conto “Manual para atropelar cachorros”, que está no livro Dentes Guardados, do Daniel Galera:
Mas tu tá trabalhando com Publicidade, né, por que? Porque a gente tem que trabalhar em alguma coisa, não tem jeito, precisa-se de dinheiro e todo trabalho é a mesma coisa, já aprendi a separar o trabalho remunerado da vida de fato, daquilo que se faz em casa uma hora antes de dormir, ou do que fazemos em nosso curto tempo livre, isso é o que importa, e no meu tempo livre eu escrevo, vejo uns filmes, leio, bebo e durmo.
Um trecho do prólogo do livro Vozes Anoitecidas, de Mia Couto:
O que mais dói na miséria a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros.
Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes.
Um trecho da letra da música “Ouro de Tolo”, do Raul Seixas:
Eu tenho uma porção
De coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado…
Um trecho da “Somos Quem Podemos Ser”, dos Engenheiros do Hawaii:
Somos quem podemos ser…
Sonhos que podemos ter…
E, para fechar essa espécie de apêndice, um trecho do livro Grande Sertão: Veredas, do grande2 Guimarães Rosa:
Visível que, aqueles outros tempos, eu pintava — cré que o caroá levanta a flor. Eh, bom meu pasto… Mocidade. Mas mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir. Também, eu desse de pensar em vago em tanto, perdia minha mão de homem para o manejo quente, no meio de todos.
1 O filme é bobo, tem final feliz e tudo, mas eu não consigo passar incólume por um diálogo desses. Assisti ao filme há certo tempo e ainda me lembro disso toda vez que penso no assunto do post de ontem.
2 O trocadilho não foi proposital. Percebi agora, mas deixa quieto.
