Hoje, na aula de Sociologia, o professor começou a falar sobre o Ziraldo. Ele disse que sempre que um repórter ia entrevistar o Ziraldo ele dizia: “Vocês não vão me perguntar nada sobre o FHC, eu adoro falar mal daquele canalha.” Até aí tudo bem. Eu não sou nenhum estusiasta de política.
Porém, quando pediram o que o Ziraldo achava dos livros do Monteiro Lobato, meu professor disse que ficou esperando uma crítica da parte do Ziraldo e que todos que conheciam bem literatura brasileira sabiam que o Monteiro Lobato não era lá essa coisas e tinha uma visão ultrapassada (ou algo que o valha). Pronto, lá se vai minha conduta blasé. Fiquei puto. Bem, vou explicar: Em primeiro lugar, acho que entendo um pouco de literatura e nunca tinha ouvido semelhante impropério. Em segundo lugar, eu tinha uma opinião sobre Monteiro Lobato que, até o momento, nunca havia me preocupado em questionar.
Para entender como cheguei a esta opinião tenho que voltar um pouco no tempo, para a época em que eu não gostava de ler. Quando tinha dez anos e estava na quinta série, eu achava estranho um garoto que lia todos os livros da série do sítio do picapau amarelo que encontrava – engraçado, hoje as pessoas devem pensar o mesmo sobre mim. Bem, como eu dizia, ler um livro longo daqueles – nem sei se os livros são longos mesmo, mas naquela época pareciam – parecia-me impossível. Eu gostava mesmo era de assistir TV, principalmente animes. Porém, quando eu estava lá pela sexta ou sétima série, para minha infelicidade (hoje, considero felicidade) a TV quebrou. Meu Deus, uma semana sem TV! O que é que eu vou fazer? Como nós sempre pegávamos livros na biblioteca do colégio, não me lembro se eu peguei um livro da série do sítio do picapau amarelo por acaso ou já pensando em ler, mas o fato é que eu o li.
Naquela época, eu estudava à tarde e lembro-me de ficar até altas horas lendo, mergulhado naquele universo mágico. O livro era o primeiro volume dos doze trabalhos de Hércules. Pela primeira vez na vida – que eu me lembre – ler parecia uma coisa divertida!
Porém, como era de se esperar, a TV foi arrumada e eu voltei a assisti-la. O estranho é que eu nem li o segundo volume do livro, até porque, segundo me lembro, não o encontrei na época. Acabei pegando outro livro do Sítio do pica-pau amarelo. Era um sobre as histórias do mundo. Eu gostei, mas como a TV voltou do conserto, não o terminei. Contudo, a mensagem estava passada e, a partir daquele tempo, passei a olhar os leitores de uma forma diferente.
Mais tarde, quando comecei a me interessar por literatura – olha só, dessa vez não precisei que a TV quebrasse! – eu passei a me lembrar com saudade daquela minha curta empreitada solitária.
Bem, acho que já sabemos o porquê da minha reação perante aquele simples comentário do meu professor. Argumentei um pouco com ele dizendo que Euclides da Cunha também tinha uma visão ultrapassada – se comparada com a nossa visão atual, é claro – e, mesmo assim, era considerado um dos maiores escritores brasileiros da história. Depois disse que Aristóteles achava a mulher inferior e nem por isso deixamos de respeitá-lo hoje. Meu professor argumentou que, naquela época, todos achavam a mulher um ser inferior. Eu disse que Platão não pensava assim. Porém, percebi que não íamos chegar a um consenso e também que eu não tinha certeza da qualidade literária do autor que eu estava defendendo, e achei melhor desistir.
Como eu disse antes, primeiro eu achei o comentário um absurdo, e, depois, me arrependi de tentar argumentar, porque percebi que eu não tinha nenhum motivo para tanto, com exceção das lembranças da minha infância e do senso-comum que envolve o nome Monteiro Lobato.
Fiquei matutando sobre o assunto até a última aula, que, por sinal, era de Português. Pedi à professora a opinião dela sobre Monteiro Lobato, e contei (como eu sou fofoqueiro) o que havia ocorrido na aula de Sociologia. Ela disse que, principalmente na literatura infantil, Monteiro Lobato era ótimo. Então, ela pegou um livro didático dela onde dizia que as únicas críticas direcionadas a ele, na época, eram referentes à sua linguagem, e vinham, em sua maioria, dos modernistas. A causa eu já conhecia – um texto chamado Paranóia ou Mistificação.
Acabamos torrando quase a aula inteira com este assunto. E acho que no fundo valeu a pena. Acabei conhecendo um outro lado de Monteiro, um lado que eu não conhecia e nunca me preocupei em conhecer: A sua preocupação com o petróleo nacional e a sua crítica aos costumes brasileiros, principalmente dos interioranos. A professora também leu um conto do livro Cidades Mortas, que se chama Um Homem de Consciência. Alguns alunos até chegaram a conclusão de que o comentário do professor se devia ao fato de que Monteiro Lobato não era petista (ora, naquela época nem havia PT) e meu professor é petista fanático. Logo, era uma crítica ideológica.
Bem, agora me deu uma vontade de ler Urupês e descobrir por mim mesmo se Monteiro Lobato merecia mesmo minha defesa, mas estou seriamente tentado a pensar que sim. E não é que aquele simples comentário do meu professor de Sociologia serviu para alguma coisa?
Se você está curioso para saber o quê, segundo meu professor, o Ziraldo respondeu à pergunta repórter: “Eu prefiro os meus livros”. O professor terminou dizendo que era uma resposta inteligente e era esse tipo de resposta que deveríamos dar para não nos compremetermos. Já a professora achou que o Ziraldo foi muito sacana (ela não usou exatamente este palavra) e poderia apenas ter dito que Monteiro Lobato era bom na sua área.
Divergências à parte, eu não posso terminar de escrever esse texto sem recorrer à famosa máxima (garanto que com essa todos concordam) de Monteiro Lobato: “Um país se constrói com homens e livros”.