Um ensaio sobre algo

Quando as primeiras notas soam, você é agarrado – suave e paulatinamente – para, depois de alguns minutos, ver-se envolvido em algo profundo demais para escapar com um simples sorriso de aceitação condescendente.

É assim que me sinto escutando Sigur Rós no sábado à noite, enquanto pessoas normais estão curtindo suas vidas do jeito que o slogan manda.

Eu, aqui, caminho para epifanias que poucas coisas conseguem me proporcionar. A música é uma delas. Principalmente quando misturada comigo mesmo e com essa coisa que a racionalidade traz junto de si; acho que a chamam de sentimento. Feeling.

As lágrimas prestes a brotar. Sei que não cairão. Alguns pensamentos, como diz William Wordsworth em um de seus poemas, são “profundos demais para lágrimas”.

Carrego em mim, no entanto, um resto de razão, o qual serve para escrever este texto, para derramar com palavras este cálice doce e misterioso, que promete montanhas da Tunísia, mas que, na verdade, traz apenas uma planície psicodélica e melancólica, onde elucubrações e lembranças se fundem para formar fantasias solitárias e mesquinhas, as quais se materializam como paredes neste espaço onírico.

Enveredo-me por esse dédalo de emoções fantasmagóricas. No entanto, em nenhum momento perco a certeza de que em breve ele se esvairá, efêmero como tudo que está entrelaçado com conceitos de tempo.

A trilha sonora agora é Radiohead e, à medida que as paredes do labirinto recém-erguido desmoronam, eu corro, sôfrego e esperançoso. A Verdade está apenas um passo à minha frente, esperando que alguém agarre-a e sorva-a de um só gole.

Ela me sorri, tímida e misteriosa. As músicas estão acabando. Ela sabe disso e acelera cada vez mais, ganhando, além de metros, pedaços da minha esperança. O esforço é muito. Tropeço junto com as sobras da minha persistência, e percebo, ao tentar me levantar, que acabou. Estou só como no início. A última canção emitiu sua derradeira melodia. A vida volta ao normal, pelo menos até a próxima chance de tocar o inefável.

O Ignoto pára de assistir. Já teve o suficiente para uma noite. Vai para a cama, e, enquanto não pega no sono, pensa em sua personagem, a única que achou que conseguiria alcançá-lo, ele, o criador. Então, já dominado pelas areias de Lord Morpheus, pergunta-se se aquele que o perseguia não era ele mesmo travestido em um de seus muitos fantoches. E em seus sonhos corre atrás de alguém a quem não consegue alcançar.

Comentários (4) »

A leitura é mesmo um hábito solitário.

A garota – que, quando eu cheguei, estava ocupada conversando com suas amigas – nota minha presença. Diz oi, como sempre. Porém, ao notar o livro que tento ler, decide que mereço um pouco mais do que a atenção de costume: pergunta-me o nome do livro. Hesito. Sei que ela não conhece o livro. Murmuro algumas palavras que soam como resmungos – reflexos da minha hesitação. Por fim, ao notar que as outras garotas também olham para mim, procuro acabar logo com esse suplício, e respondo (desta vez com convicção): Avalovara.

Noto, ou melhor, confirmo – não sem certo orgulho ou vaidade – que ela não conhece o livro. Depois, ela se volta para as amigas e diz o título do livro que está lendo. Faço novos prognósticos: normalmente tentaria Sidney Sheldon, mas, como estranho o título, penso em Harold Robbins ou qualquer outro best-seller. Acerto novamente. Harold Robbins.

Com o fim do efêmero diálogo (ou seria interrogatório?), posso voltar a ler. Termino o capítulo, guardo o livro. Logo o lanche acaba e vamos para a sala.

***

O professor de filosofia começou a fazer a chamada. Sei que ele vai demorar pelo menos metade da aula com essa pequena tarefa, que sempre acaba entremeada de conversas fúteis que nada tem a ver com a matéria.

Pego o livro, que estava na mochila. Antes para recapitular algumas partes do que para avançar na leitura. Meu colega – que, por sinal, também estava ocioso – pega o seu livro, apenas para me apoquentar. Eu, não conseguindo me concentrar na leitura, noto. Ele, por sua vez, percebendo isso, começa sua mangação: “o livro que estou lendo é melhor que o seu.” Não tenho necessidade de olhar a capa de seu livro – sei que ele está lendo Cinzas do Norte, do Milton Hatoum.

Como não tenho nada para fazer e não consigo me concentrar na leitura, cedo, aceito o seu desafio. E começa uma versão um pouco mais madura (será mesmo?) do “o meu é melhor que o seu” que fazíamos quando tínhamos 10/12 anos.

***

Lição do dia/moral das histórias: largar a internet e ler enquanto estou em casa. Ler em locais públicos não é uma boa opção. Além disso, Osman Lins e seu Avalovara merecem o silêncio e a solidão que reinam em meu quarto.

Deixe um comentário »

Spoilers sobre Os Indomáveis (3:10 to Yuma)

Como hoje é dia das mães, vou narrar de memória uma passagem do filme Os Indomáveis (3:10 to Yuma), que assisti ontem.

Ben Wade, o vilão, está sendo escoltado por um desfiladeiro. Tudo vai bem até que um dos sujeitos que o estavam escoltando, um velho chamado Byron, resolve ofender os parentes dele – diz que ele é filho de um coveiro bêbado e de uma prostituta. Voilà: Ben Wade, mesmo algemado, pula de seu cavalo e agarra Byron, que estava no cavalo contíguo. Os dois rolam no chão, Ben Wade toma a arma de Byron e dá uma surra nele. Logo depois ele rende os outros e joga Byron no desfiladeiro, finalizando com a seguinte frase: “Até os homens maus amam suas mães.”

***

Agora que já fiz minha “homenagem” às mães, vou comentar o filme.

Essa parte que eu narrei é a segunda que me fez simpatizar com o Ben Wade (Russell Crowe). A primeira foi uma em que ele mata o cara mais chato do filme – ainda bem, eu não ia agüentar aquele cara até o fim do filme. Não que eu goste de assassinatos, mas o cara era muito chato. Nada como canalizar sua maldade de uma forma útil à sociedade.

Brincadeiras à parte, meu pai não gostou do filme, mas eu gostei. E acho que isso aconteceu porque eu tive um insight pessoal sobre seu significado. Alguns filmes não te levam à conclusão nenhuma, outros sim. Esse é o caso de Os Indomáveis.

Embora as cenas de ação sejam boas, eu acho que o melhor está na relação entre os personagens principais – o já citado Ben Wade e Dan Evans (Christian Bale).

Ben Wade parece ter uma simpatia – ou seria empatia – por Dan Evans. E isso é provado no final do filme, quando Wade passa a colaborar com Dan. Parece-me que isso se deu porque Wade ficou impressionado por encontrar um homem fracassado, mutilado e endividado, para quem a vida não foi fácil, e que mesmo assim não se rendeu às suas ofertas – provavelmente o único homem íntegro no filme inteiro.

Então, no final do filme, Dan é morto por um membro do bando de Wade. Este, não conseguindo suportar a idéia de que um homem íntegro como Dan pudesse ser morto assim de forma gratuita, dizima seu bando inteiro, incluindo seu parceiro de longo tempo, o qual fez de tudo para salvá-lo. Provavelmente a melhor e mais curta cena de tiroteio que eu já vi (isso se der para chamar de tiroteio uma cena em que apenas uma pessoa atira em todas as outras com uma velocidade espantosa).

Essa última cena deixa o espectador confuso – se por um lado Wade vingou Dan, por outro matou seus companheiros. E o final ainda dá a entender que ele irá fugir. Porém, acho que esse era o barato do filme – fugir do clichê. Wade continua sendo um vilão, mas um vilão diferente.

P.S.: Só lembrei agora de dizer que esse faroeste é uma regravação de um filme de 1957, com roteiro baseado em uma estória de Elmore Leonard – só podia ser, o mesmo autor que é cultuado por Tarantino e vários outros. Não que a história do filme seja tão boa assim, mas vá lá.

P.P.S.: Descobri que tenho uma leitora. Estou honrado. Se ela voltar, acho que vou ter que caprichar mais. Esse post, por exemplo, só dá as caras porque estou há muito tempo sem postar (pelo menos para um blog).

Deixe um comentário »

Grande Monteiro!

Hoje, na aula de Sociologia, o professor começou a falar sobre o Ziraldo. Ele disse que sempre que um repórter ia entrevistar o Ziraldo ele dizia: “Vocês não vão me perguntar nada sobre o FHC, eu adoro falar mal daquele canalha.” Até aí tudo bem. Eu não sou nenhum estusiasta de política.

Porém, quando pediram o que o Ziraldo achava dos livros do Monteiro Lobato, meu professor disse que ficou esperando uma crítica da parte do Ziraldo e que todos que conheciam bem literatura brasileira sabiam que o Monteiro Lobato não era lá essa coisas e tinha uma visão ultrapassada (ou algo que o valha). Pronto, lá se vai minha conduta blasé. Fiquei puto. Bem, vou explicar: Em primeiro lugar, acho que entendo um pouco de literatura e nunca tinha ouvido semelhante impropério. Em segundo lugar, eu tinha uma opinião sobre Monteiro Lobato que, até o momento, nunca havia me preocupado em questionar.

Para entender como cheguei a esta opinião tenho que voltar um pouco no tempo, para a época em que eu não gostava de ler. Quando tinha dez anos e estava na quinta série, eu achava estranho um garoto que lia todos os livros da série do sítio do picapau amarelo que encontrava – engraçado, hoje as pessoas devem pensar o mesmo sobre mim. Bem, como eu dizia, ler um livro longo daqueles – nem sei se os livros são longos mesmo, mas naquela época pareciam – parecia-me impossível. Eu gostava mesmo era de assistir TV, principalmente animes. Porém, quando eu estava lá pela sexta ou sétima série, para minha infelicidade (hoje, considero felicidade) a TV quebrou. Meu Deus, uma semana sem TV! O que é que eu vou fazer? Como nós sempre pegávamos livros na biblioteca do colégio, não me lembro se eu peguei um livro da série do sítio do picapau amarelo por acaso ou já pensando em ler, mas o fato é que eu o li.

Naquela época, eu estudava à tarde e lembro-me de ficar até altas horas lendo, mergulhado naquele universo mágico. O livro era o primeiro volume dos doze trabalhos de Hércules. Pela primeira vez na vida – que eu me lembre – ler parecia uma coisa divertida!

monteiro_lobato_os_doze_trabalhos_hercules.jpg

Porém, como era de se esperar, a TV foi arrumada e eu voltei a assisti-la. O estranho é que eu nem li o segundo volume do livro, até porque, segundo me lembro, não o encontrei na época. Acabei pegando outro livro do Sítio do pica-pau amarelo. Era um sobre as histórias do mundo. Eu gostei, mas como a TV voltou do conserto, não o terminei. Contudo, a mensagem estava passada e, a partir daquele tempo, passei a olhar os leitores de uma forma diferente.

Mais tarde, quando comecei a me interessar por literatura – olha só, dessa vez não precisei que a TV quebrasse! – eu passei a me lembrar com saudade daquela minha curta empreitada solitária.

Bem, acho que já sabemos o porquê da minha reação perante aquele simples comentário do meu professor. Argumentei um pouco com ele dizendo que Euclides da Cunha também tinha uma visão ultrapassada – se comparada com a nossa visão atual, é claro – e, mesmo assim, era considerado um dos maiores escritores brasileiros da história. Depois disse que Aristóteles achava a mulher inferior e nem por isso deixamos de respeitá-lo hoje. Meu professor argumentou que, naquela época, todos achavam a mulher um ser inferior. Eu disse que Platão não pensava assim. Porém, percebi que não íamos chegar a um consenso e também que eu não tinha certeza da qualidade literária do autor que eu estava defendendo, e achei melhor desistir.

Como eu disse antes, primeiro eu achei o comentário um absurdo, e, depois, me arrependi de tentar argumentar, porque percebi que eu não tinha nenhum motivo para tanto, com exceção das lembranças da minha infância e do senso-comum que envolve o nome Monteiro Lobato.

Fiquei matutando sobre o assunto até a última aula, que, por sinal, era de Português. Pedi à professora a opinião dela sobre Monteiro Lobato, e contei (como eu sou fofoqueiro) o que havia ocorrido na aula de Sociologia. Ela disse que, principalmente na literatura infantil, Monteiro Lobato era ótimo. Então, ela pegou um livro didático dela onde dizia que as únicas críticas direcionadas a ele, na época, eram referentes à sua linguagem, e vinham, em sua maioria, dos modernistas. A causa eu já conhecia – um texto chamado Paranóia ou Mistificação.

Acabamos torrando quase a aula inteira com este assunto. E acho que no fundo valeu a pena. Acabei conhecendo um outro lado de Monteiro, um lado que eu não conhecia e nunca me preocupei em conhecer: A sua preocupação com o petróleo nacional e a sua crítica aos costumes brasileiros, principalmente dos interioranos. A professora também leu um conto do livro Cidades Mortas, que se chama Um Homem de Consciência. Alguns alunos até chegaram a conclusão de que o comentário do professor se devia ao fato de que Monteiro Lobato não era petista (ora, naquela época nem havia PT) e meu professor é petista fanático. Logo, era uma crítica ideológica.

Bem, agora me deu uma vontade de ler Urupês e descobrir por mim mesmo se Monteiro Lobato merecia mesmo minha defesa, mas estou seriamente tentado a pensar que sim. E não é que aquele simples comentário do meu professor de Sociologia serviu para alguma coisa?

Se você está curioso para saber o quê, segundo meu professor, o Ziraldo respondeu à pergunta repórter: “Eu prefiro os meus livros”. O professor terminou dizendo que era uma resposta inteligente e era esse tipo de resposta que deveríamos dar para não nos compremetermos. Já a professora achou que o Ziraldo foi muito sacana (ela não usou exatamente este palavra) e poderia apenas ter dito que Monteiro Lobato era bom na sua área.

Divergências à parte, eu não posso terminar de escrever esse texto sem recorrer à famosa máxima (garanto que com essa todos concordam) de Monteiro Lobato: “Um país se constrói com homens e livros”.

monteirolobato.jpg

Comentários (10) »

Primeira postagem.

O amor à palavra. A vaidade da escrita. A falta do que fazer. A esperança no desconhecido. Por que escrevemos ou deixamos de escrever? Por que nos torturamos com a busca desenfreada e obsessiva pela melhor frase?

Prometi para mim mesmo que meu primeiro post não teria lirismo piegas, mas a melancolia do ócio…

Na falta do que fazer, não vou inventar minha liberdade. Vou sonhá-la. Vou descer ao porão e esbanjar clichês. Escreverei para ninguém ler e ficarei triste quando abrir a página, no próximo dia de postagem, e não escontrar nenhum comentário.

Tinha planejado meu primeiro post para ontem, mas, depois de terminar Vidas Secas, fiquei na fossa um bom tempo. E olha só, cá estou eu na fossa novamente, fantasiando o que nunca serei: escritor.

Como um otimista, aqui estou, esperando ganhar na loteria do talento. E, enquanto isso não acontecer, continuarei escrevendo, sonhando e tentando acreditar que esses sonhos se tornarão realidade.

P.S.: Segundo meus cálculos, este é meu quarto blog e vai durar aproximadamente umas cinco postagens. Agora tenho um Hemingway me esperando. Goodbye Cruel World of Internet.

Comentários (2) »